PiriCastra Consciente: animais domésticos entre dois mundos
Um cão abandonado dentro de uma RPPN na Mata Velha, em Pirenópolis, levou a ONG PiriCastra a questionar: para onde vai um animal doméstico que não pertence mais à natureza?
Um cão abandonado dentro de uma RPPN na Mata Velha, em Pirenópolis, levou a ONG PiriCastra a questionar: para onde vai um animal doméstico que não pertence mais à natureza?
A coluna PiriCastra Consciente desta semana aborda o lugar dos animais domésticos entre dois mundos: a natureza silvestre e o ambiente humano. A reflexão parte de um caso recente acompanhado pela ONG PiriCastra, depois que um cão foi abandonado dentro de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), na região da Mata Velha, em Pirenópolis. O animal precisava ser retirado da reserva. Mas, diante da situação, surgiu uma pergunta fundamental: sair para onde?
Um cão abandonado em uma RPPN na Mata Velha, em Pirenópolis, levou a ONG PiriCastra a refletir sobre o lugar dos animais domésticos entre a natureza e o ambiente humano. A coluna questiona o destino dado a esses animais e defende que preservar a biodiversidade e proteger cães e gatos são responsabilidades complementares.
As RPPNs nascem de uma escolha generosa e necessária: preservar permanentemente uma parte de uma propriedade privada. Reconhecidas oficialmente, essas áreas são destinadas à conservação da biodiversidade e oferecem abrigo à vegetação nativa e aos animais silvestres diante do avanço das cidades, das estradas, das lavouras e de tantas outras intervenções humanas.
O cachorro abandonado, porém, revelou uma contradição inquietante. Quando uma onça, um tamanduá, uma seriema ou um lobo-guará atravessa uma RPPN, está em seu ambiente. Quando um cão ou um gato entra na mesma área, porém, passa a ser visto como uma presença indesejada. Há motivos ambientais para isso: animais domésticos soltos podem perseguir espécies silvestres, transmitir doenças, disputar alimentos e interferir no equilíbrio do ecossistema. Proteger a reserva significa, portanto, impedir que permaneçam ali.
Mas essa realidade revela algo mais profundo: cães e gatos já não pertencem inteiramente à natureza selvagem. Durante milhares de anos, o ser humano selecionou determinadas espécies, controlou sua reprodução e modificou seu comportamento. Transformou antigos lobos em cães de companhia e aproximou os gatos dos povoados, dos celeiros e, finalmente, de nossas casas. Um cachorro doméstico não sabe simplesmente voltar para a natureza. Um gato abandonado pode conservar fortes instintos de caça, mas isso não significa que esteja preparado para viver com segurança em um ambiente silvestre.
A necessidade de impedir a presença de cães e gatos dentro das RPPNs não deve ser questionada. O que precisa ser questionado é o destino dado a esses animais depois de retirados. Proteger a natureza não pode significar simplesmente pegar um cachorro e abandoná-lo do outro lado da cerca. A remoção pode ser necessária para preservar a fauna silvestre, mas deve vir acompanhada de uma pergunta fundamental: se um cachorro aparece em uma reserva, ele não surgiu ali espontaneamente. Pode ter sido abandonado diretamente, ter se perdido ou ter nascido como consequência da reprodução descontrolada de animais não castrados.
O problema, portanto, não começa com o cachorro dentro da RPPN. O animal doméstico abandonado também não deve ser romantizado como livre. Na maioria das vezes, ele não está livre: está desamparado. Precisa procurar água, alimento e algum ser humano disposto a ajudá-lo. Preservar a biodiversidade e proteger cães e gatos não são causas opostas. A castração reduz o nascimento de animais sem destino. A guarda responsável impede que cães circulem, cacem ou se reproduzam livremente. A identificação facilita o reencontro com os tutores. A fiscalização combate o abandono. E uma política pública permanente evita que cada novo caso seja empurrado para moradores, protetores e organizações que já trabalham além de seus limites.
Levar o cachorro para um local ainda mais remoto, fora dos limites da reserva, não é uma solução. É apenas transferir o problema e praticamente condená-lo a sofrer de fome, sede, doença ou ferimentos até a morte, caso não consiga encontrar novamente um ser humano disposto a ajudá-lo. A natureza silvestre precisa ser protegida. E cabe ao ser humano, autor dessa separação entre os dois mundos, construir uma solução ética para ambos.
PiriCastra Consciente, coluna de convidado. Instagram e Facebook: @piricastra. Contato: (62) 98235-7688.
Letícia Bonfim
Análises independentes sobre maquininhas, pagamentos e empreendedorismo no Brasil. Conteúdo editorial sem viés comercial.
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